Modelo de responsabilidade compartilhada — o que é da cloud vs do cliente
O modelo de responsabilidade compartilhada define quem protege o quê em ambientes de cloud. É o ponto de partida de qualquer estratégia de segurança na nuvem. Provedores como AWS, GCP e Azure deixam isso claro na documentação, mas na prática a linha ainda confunde equipes inteiras.
A divisão básica
Responsabilidade do PROVEDOR (segurança DA cloud):
- Hardware físico dos data centers
- Rede global, roteadores, switches
- Hypervisores e isolamento de VMs
- Software base dos serviços gerenciados (RDS, S3, Lambda)
- Patches do sistema operacional em serviços fully-managed
Responsabilidade do CLIENTE (segurança NA cloud):
- Configuração dos serviços (IAM, security groups, buckets)
- Dados armazenados e em trânsito
- Sistema operacional de VMs/EC2 (patches, hardening)
- Aplicações e código da workload
- Gerenciamento de credenciais e chaves
- Monitoramento, logging e resposta a incidentes
Varia conforme o modelo de serviço
O nível de responsabilidade do cliente muda conforme o modelo contratado:
On-Premises: cliente controla tudo (hardware → app)
IaaS (EC2, GCE, Azure VM):
Provedor → hardware, hypervisor, rede física
Cliente → SO, runtime, middleware, app, dados, config de rede virtual
PaaS (Elastic Beanstalk, Cloud Run, App Service):
Provedor → SO, runtime, plataforma
Cliente → app, dados, configurações da plataforma
SaaS (Google Workspace, Salesforce, Office 365):
Provedor → quase tudo da infraestrutura
Cliente → dados, permissões de usuários, configuração de segurança do app
Erros comuns de interpretação
“O provedor garante disponibilidade, então eu não preciso de backup.” Disponibilidade do serviço não é o mesmo que proteção dos seus dados. Você deletou um bucket S3? O dado sumiu. O provedor não restaura o que o cliente apagou por acidente ou por ransomware.
“O serviço é gerenciado, então está seguro.” RDS gerenciado protege o SO do banco. Não protege seu schema, suas permissões de banco, ou suas queries sem prepared statements.
“A rede interna da cloud é confiável.” Movimento lateral entre recursos da mesma conta é possível se security groups e IAM estiverem mal configurados. Zero trust se aplica também dentro da cloud.
Mapeamento rápido — AWS como exemplo
S3:
AWS → durabilidade, criptografia de disco, disponibilidade
Você → ACLs, bucket policy, bloqueio de acesso público, versionamento
EC2:
AWS → hardware, hypervisor, rede física
Você → patches do SO, firewall (security groups), SSM agent, antivírus
Lambda:
AWS → SO, runtime, escalonamento
Você → código, permissões da execution role, variáveis de ambiente
RDS:
AWS → SO, patches do engine, backups automáticos
Você → senhas, permissões de banco, VPC/subnet group, acesso público on/off
IAM:
AWS → o serviço IAM em si
Você → usuários, roles, policies, MFA — tudo é seu
Boas práticas
- Leia o Shared Responsibility Model do seu provedor. É documentação oficial e vincula o que eles garantem.
- Documente internamente quais controles são do time de plataforma vs do time de aplicação.
- Em auditorias, perguntas sobre “quem é responsável por X” devem ter resposta clara e escrita.
- Use frameworks como CIS Benchmarks e NIST CSF para mapear os controles que são sua responsabilidade.